
Por Thomaz Antonio Barbosa
O refinamento das táticas de intervenção norte-americanas, na tentativa obsessiva e permanente de fazer da América Latina quintal estratégico de Washington, atingiu seu ápice quando fuzis foram trocados por bíblias, folhetos, por santinho de candidato. Durante a Guerra Fria, especificamente a partir das décadas de 1960 e 1970, o avanço das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, acendeu o alerta vermelho nos escritórios da CIA. Essa ramificação da Igreja Católica fundamentava-se na Teologia da Libertação, uma doutrina que unia fé e justiça social, organizando os mais vulneráveis em núcleos de conscientização política e resistência comunitária. Para o pragmatismo imperialista dos Estados Unidos da América, aquela mobilização popular representava comunismo disfarçado de religião, uma heresia ideológica que precisava ser extirpada para garantir a hegemonia capitalista na região.
A resposta da inteligência norte-americana consistiu em patrocinar uma sutil e agressiva mutação espiritual no continente, injetando milhões de dólares no financiamento de missões e seitas fundamentalistas importadas para atuarem em solo latino-americano. Ao mesmo tempo, o Vaticano, amedrontado pelo esquerdismo interno, promoveu uma cisão institucional ao asfixiar a igreja de base, pavimentando o caminho para o neopentecostalíssimo. No vácuo deixado pelo sufocamento das CEBs, ascendeu a Teologia da Prosperidade, uma vertente mercantilista que substituiu a busca por direitos coletivos, pela obsessão individual do enriquecimento. O sagrado virou mercadoria e os templos transformaram-se em balcões de negócios, pervertendo a fé em um anestésico social perfeitamente alinhado ao neoliberalismo ianque.
Essa engrenagem mística evoluiu para a ideologia do domínio, um plano deliberado de teocracia disfarçada que visa sequestrar o Estado por meio do voto. Longe de buscar a salvação eterna, os novos coronéis da fé articulam uma vingança rasa contra o laicismo estatal e a hegemonia histórica da igreja católica, ocupando cargos públicos com o fervor de reformistas modernos. O púlpito converteu-se em palanque, a bíblia em fuzil, transformando o evangelismo da CIA em uma poderosa ferramenta de geopolítica capaz de chantagear governos, influenciar eleições presidenciais e minar as bases democráticas da América Latina por meio da pregação do medo e do ódio, promovendo um cristianismo de resultado, onde o sucesso coletivo foi substituído pelo o individual e o reino do céu, por um milagre mercantilizado.
No Brasil, esse laboratório de manipulação encontrou seu ponto de entrada estratégico na região Norte, utilizando o estado do Pará como principal portal de penetração a partir do início do século vinte. Embora as primeiras missões assembleianas tenham aportado em Belém em 1911, a infiltração de agências estrangeiras ganhou tração macabra décadas depois, voltada ao monitoramento do território, pesquisas de mineralogia e sedução de nativos e colonos. Por meio de missões transculturais altamente estruturadas, como a Missão Novas Tribos do Brasil, o evangelismo de matriz norte-americana penetrou no interior da Amazônia brasileira. Sob o pretexto da evangelização indígena, consolidou-se uma estrutura que visava não apenas a conversão espiritual, mas a inserção de uma lógica cultural alinhada aos interesses estrangeiros. O projeto amazônico dessa vertente consistia em fragmentar a resistência local, costumes e tradições, abrindo o território – rico em minérios – ao capital estrangeiro.
As Forças Armadas Brasileiras e o golpe militar de 1964 funcionaram como base de apoio indispensável para a consolidação desse plano de substituição cultural, política e soberania. Por meio da criação de corredores de trafegabilidade, rasgando a floresta, sob o slogan cínico de “integrar para não entregar”, eles abriram canais de escoamento, no que eles chamavam de “vazio demográfico”, abrindo as portas da Amazônia não somente para a entrada da exploração estrangeira, como também das tropas americanas em uma posição ocupação armada. Enquanto generais perseguiam trabalhadores, torturavam estudantes e calavam clérigos engajados nas CEBs, o regime facilitava a expansão de templos dóceis que pregavam a submissão ao imperialismo ianque, o embrionamento do ovo do dragão. Ou seria da águia? Todavia, esse mutualismo aplainou o terreno para a posterior ascensão do bolsonarismo, que instrumentalizou o ressentimento religioso em um projeto de poder autocrático.
Não se enganem, a ascensão meteórica do bolsonarismo não se trata de um acidente, porém de um subproduto planejado dessa arquitetura de dominação norte-americana por meio da inversão do predomínio religioso que vai culminar em disputa ferrenha pelo poder e na derrocada da soberania nacional. Esse movimento de extrema-direita encaixou-se perfeitamente no desenho geopolítico de submissão aos interesses de Washington, instrumentalizando o rebanho eleitoral para minar a autonomia institucional do país e promover a ruptura democrática, ao avassalar o sentimento patriótico aos ditames da Casa Branca. Essa simbiose entre fanatismo religioso e ultraconservadorismo tem a pretensão clara e inequívoca de entregar riquezas nacionais e o controle do Brasil ao governo dos Estados Unidos da América, sem contrapartida, recibo ou duplicata firmada para receber depois.
Portanto, a transformação da religião em um instrumento de poder político reflete-se na sua capacidade de moldar pautas morais, mobilizar massas e converter disputas eleitorais internas em verdadeiras “batalhas espirituais” maniqueístas, obliterando debates socioeconômicos objetivos em favor de dogmas polarizadores, fenômeno que transcende as fronteiras domésticas e assume contornos de estratégia geopolítica. Era o que pretendiam quando da inserção de uma nova vertente evangélica no tempo da Guerra Fria, com o financiamento de missões e corporações midiáticas alinhadas aos interesses dos Estados Unidos. Ao exportar e incentivar vertentes teológicas conservadoras e individualistas para a América Latina e, especificamente, para o Brasil, o gabinete de Washington encontrou uma ferramenta eficaz para esvaziar movimentos sociais de base — como a Teologia da Libertação —, fragmentar a coesão identitária regional e pavimentar o caminho para a consolidação de sua hegemonia econômica e política sob o pretexto da defesa de valores da religião, da família e da pátria, todavia, uma indisfarçável cortina de fumaça para os interesses econômico e supremacista dos Estados Unidos da América.
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