Conversa com Thomaz

Guerra híbrida e a vingança dos párias – parte II, histórico

Por Thomaz Antonio Barbosa

Na Guerra Fria

Nos Estados Unidos, em épocas de “Guerra Fria”, no contexto das relações e da segurança internacional daquele país, o termo utilizado para descrever o espaço ambíguo entre a paz e a guerra — onde atores estatais e não estatais se envolvem em competição, sem cruzar o limiar de um conflito armado formal e direto — era chamado de “grey zone”, em tradução literal, Zona Cinzenta. Portanto, o conflito acontece em uma zona nebulosa, onde se torna impossível distinguir uma da outra devido à ambiguidade das táticas empregadas, sobretudo, sem inimigo declarado, com ataques anônimos e sem chances de defesa.

“O conflito acontece em uma zona nebulosa, onde se torna impossível distinguir uma da outra devido à ambiguidade das táticas empregadas”

Na extinta URSS já se utilizava o termo “medidas ativas” para se referir a estratégias de influência, mas foi o general russo Valery Gerasimov quem atualizou esse conceito para o cenário contemporâneo. Em um artigo de 2013 intitulado “o valor da ciência reside na previsão” — que ficou conhecido como a “Doutrina Gerasimov” —, o militar enfatiza que as regras da guerra mudaram e que o uso de meios não militares, políticos, econômicos, informacionais e tecnológicos é capaz de superar a eficácia da força das armas. Segundo essa abordagem, aproximadamente 80% dos conflitos modernos focam intensamente nas novas tecnologias, criando um ambiente de guerra psicológica, ciberataques e, sobretudo, de desinformação.

O objetivo central dessa estratégia é manipular pessoas, adestrá-las para desestabilizar o inimigo, seja o Estado, um governo ou uma personalidade, de forma permanente, derrotando-o em um vasto e difuso campo de batalha, a mente humana, onde de fato a guerra acontece.

Apesar do uso da informação ou da desinformação como modalidade de guerra não ser uma prática recente — Sun Tzu, em 500 a.C., dizia que a suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar —, o termo “guerra híbrida”, todavia, surge no final da década de 1990 e no início dos anos 2000. Embora Robert G. Walker o tenha sugerido em 1998, foi o teórico norte-americano Frank Hoffman, em 2007 — apoiado em uma análise da guerra do Líbano, em 2006 — que deu destaque à expressão. Segundo ele, naquele conflito, o Hezbollah utilizou uma mistura de guerra convencional, táticas irregulares e ciberguerra contra Israel, combinando guerrilha, mísseis e televisão com o uso massivo das redes sociais

Enfim, a guerra híbrida consiste em operações de influência, ações planejadas e coordenadas para manipular a opinião pública, desestabilizar adversários e moldar o comportamento dos tomadores de decisão. Em um contexto moderno, ela é frequentemente utilizada por países — sobretudo as grandes potências — que buscam maximizar ganhos, aumentar sua influência em determinada região e controlar territórios, sem enfrentar as consequências de um conflito bélico formal. É uma etapa inicial de operações, para garantir a vitória futura, é cansar o inimigo, desgastá-lo, fazê-lo desistir, antes da utilização efetiva das forças armadas.

No Brasil

Desde o período da Guerra Fria — quando prevaleceram as ditaduras militares nos países capitalistas, sob vieses ideológicos para frear a expansão do socialismo no mundo —, os Estados Unidos da América têm feito uma movimentação na América Latina na tentativa de sufocamento democrático e institucional do Brasil, visando, por meio da ocupação de países vizinhos, o domínio amplo de seu território. E o governo Trump vê no crescimento da extrema direita a possibilidade de concretizar esse projeto, que começa com Kennedy na criação da USAID, uma ferramenta de soft power que tinha a intenção inicial de melhorar as condições de vida em países subdesenvolvidos para conter o avanço e a influência da União Soviética nessa região; passa por Ronald Reagan, no Documento de Santa Fé, um estudo elaborado para orientar a sua administração na América Latina; e chega ao trumpismo, um governo caracterizado pela abordagem transacional combinada com o nacionalismo econômico, “América Primeiro”, bem como pela imprevisibilidade estratégica, conhecida na diplomacia como a “Teoria do Louco”, e, sobretudo, pela busca da expansão do poder executivo por meio de decretos, tarifas e sanções. E por ser o único país da região desalinhado ao modelo de Washington, a terra dos tupiniquins é o alvo.

Nos dias atuais

Dentro do contexto de modernidade, a guerra híbrida surge nos Estados Unidos, no governo de George W. Bush, na luta contra o que eles chamaram de  extremismo, embalado pelo ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2011, momento em que o terrorismo mostrou ao mundo não o que fez, mas o que seria capaz de fazer, sequestrar aviões americanos em seu espaço aéreo, invadir o sistema de defesa daquele país, o Pentágono, e colocar em risco a segurança nacional e a de seu presidente. A partir daquele momento, surgiram interrogações na mente dos estrategistas, das lideranças e das autoridades estadunidenses sobre a necessidade de se manter um aparelho militar tão sofisticado e tão caro, que se mostrava tão desnecessário. Portanto, era urgente descobrir uma modalidade nova de se guerrear. Então, a força bruta foi sendo substituída pela inteligência; aviões de combate, trocados por drones não tripulados e suas fantásticas webcams; e, principalmente, as armas de fogo deram lugar a um telefone celular.  

Tudo isso misturado a um sofisticado sistema de manipulação da informação e a um exército de doutrinados, anestesiados por um arsenal de fake news, bravatas e simbolismos vindos de todos os lados. A guerra híbrida estava no ar, lançando racismo, machismo, fanatismo e uma série de outros ismos, promovendo uma sociedade adoecida, todavia envaidecida pelo desejo de matar, capaz de mudar a ordem, formada por fanáticos ávidos por vingança, envenenados por pensadores, cientistas sociais, historiadores, psicólogos, jornalistas e, principalmente, especialistas em mídias sociais e táticas militares, atuando – no caso específico no Brasil – em uma zona cinzenta, um vasto e nebuloso campo de batalha, a mente dos brasileiros.

CONTINUA….

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