
Por Thomaz Antonio Barbosa
No dia 8 de janeiro de 2023, o Brasil viveu um dos momentos mais toscos de sua história. A Praça dos Três Poderes, ao entardecer, foi invadida por uma turba delirante, ensandecida, disposta a botar o país abaixo, promover a ruptura democrática e elevar definitivamente uma casta privilegiada ao poder. Era o desfecho de um longo período de envenenamento, de adormecimentos cerebrais, de sonambulismos e adestramento de uma malta historicamente invisível, subestimada e agora enfurecida, com o aporte de um conjunto de forças que há tempos procura colocar definitivamente as mãos no estado brasileiro.
Devidamente “imbecilizados” pelos seus líderes, os párias invadiam o Plano Piloto com um desejo inadiável de vingança e predisposição absoluta para fazê-la a qualquer preço. Furiosos e incontroláveis, vandalizaram os prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. Era o desfecho de um namoro perigoso, de um projeto bem articulado, a iminência de, após décadas, os militares retornarem ao poder — desta vez sem fuzis nem canhões, todavia, alçados por uma massa alucinada.
Não tinha mais como esconder, o país estava em guerra e o conflito híbrido chegava às alcovas da República, embalada por uma legião de justiceiros em transe — com sangue nos olhos —, prontos para romper com o estabelecido, insultar, transgredir a ordem democrática e institucional, e tomar de assalto o país pelo viés da barbárie. A intenção era clara, senão óbvia, transformar o Brasil novamente em uma ditadura, dessa vez civil e militar, com um “capitão do mato” ditando as regras na colônia, todavia, comandada diretamente pelos Estados Unidos da América. Sim, eles mandam nesse jogo!
Ensandecida e voraz, a turba que invadiu o Plano Piloto parecia ter sido disparada por um comando digital, guiada por um controle remoto ou um telefone celular — e era.
A guerra híbrida chegava à sua fase mais crítica, a utilização da população como alvo, onde o campo de batalha é a cabeça do indivíduo. Aqui ele não está, ele é. Factoides como a ameaça comunista, a ideologia de gênero, a escola partidarizada, a demonização do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e do Executivo, combinados ao discurso anticorrupção, alimentavam uma contenda de todos contra todos. Naquela tarde de 8 de janeiro de 2023, o Brasil ardia; os estilhaços do conflito tomavam o país de assalto.
- O que é guerra híbrida
Guerras híbridas são formas não convencionais de estabelecer conflitos permanentemente acesos, por meio de operações psicológicas, com o objetivo de influenciar a opinião das pessoas para sufocar o adversário sem o uso direto do aparelho bélico. Sugere a existência de um inimigo interno comum, uma ameaça que, antes de tudo, precisa ser exterminada, mediante a combinação de táticas modernas com as já tradicionais de combate.
São caracterizadas por ataques cibernéticos e por grandes operações judiciais e de espionagens, visando desestabilizar governos, descredibilizar instituições nacionais e indivíduos que exerçam a função pública, demonizando regimes e ideologias, destruindo empresas, sistemas bancários e processos eleitorais, com fins políticos e hegemônicos, sem a eclosão de um confronto armado propriamente dito.
É uma guerra anônima, ninguém sabe de onde partem os ataques, contudo, favorece a muitos atores e interesses, atuando diretamente na mente humana por meio do uso massivo das novas tecnologias digitais e de um jeito particular de dialogar com as massas, a desinformação.
É um cancelamento geral com o intuito de contraditar a efetividade do Estado e seus aparelhos democráticos, uma estratégia de manipulação mental por intermédio da produção e construção e uma imagem distorcida da realidade, uma verdadeira fábrica de notícias falsas e sabotagens, criando um ambiente de incertezas e de conspirações múltiplas em meio à massa delirante, onde todos lutam contra todos.
Acertadamente, guerra híbrida é o uso coordenado de meios não-convencionais e irregulares, combinados com estratégias militares tradicionais, ações cibernéticas, informacionais, meios econômicos e jurídicos, concatenados e simultâneos, sem exceder ao limite de um conflito formal, com a finalidade de atingir objetivos políticos. É uma forma suavizada de não invadir com tanque, mas com narrativa. Todavia, se precisar do primeiro, o segundo já preparou o terreno.
É guerrear sem declarar guerra, misturando tanque balístico com o threads, soldado com fake news, eleição com sabotagem, tarifas com religião. O objetivo é vencer sem atirar, ou atirando, se necessário, no último caso.
Tem um ingrediente fundamental para a compreensão do porquê da opção por esse tipo de conflito. É que na modalidade híbrida não existe crime de guerra devido à ausência da fonte, e nisso reside algumas resistências em regulamentar o espaço cibernético, a galáxia onde estão as gigantes corporações transnacionais multibilionárias do setor de tecnologia, concentradoras de infraestrutura, dos algoritmos e do mercado global de dados, as temidas big techs.
Big techs são empresas controladoras das redes sociais, um território livre onde tudo é possível, um espaço propício para a disputa de narrativas e quem melhor conhece o inimigo e as armas utilizadas vence. Nesse quesito a direita segue na frente com larga vantagem, por essa razão é fácil entender o clamor por “liberdade de expressão” e por não-regulamentação bramido por quem atua deliberadamente nesse setor ambíguo.
CONTINUA…..