

Por Lúcio Carril *
“Nunca amou os Beatles e os Rolling Stones, mas se fez artista“.
Com sandálias havaianas, calça jeans desbotada e cabelos soltos ao vento perambulava pelas ruas da cidade carregando seu violão Gianinni. Chamava atenção aquele homem de estatura mediana e estilo ripongo.
Nunca falou, mas deve ter sido influenciado pelo movimento hippie dos anos 60, quando a juventude se rebelou contra o conservadorismo dominante. Pelo menos se vestia no mesmo estilo rebelde, despojado e desafiador.
E assim fez seu nome como artista. Construiu amigos e amigas, teve mulheres, filhos e filhas. Era boa pessoa, carinhoso, atencioso.
O tempo passou. Ficou velho. Os cabelos maltratados não mais voavam ao vento. Já não andava mais com seu violão – velho parceiro, como ele costuma dizer. Sempre o via caminhando, de cabeça baixa, olhar entristecido, sorriso amarelado. Não fazia mais show e seus amigos não sabiam se ainda fazia aquelas canções que acalentavam suas noites regadas a várias geladas.
Certo dia todos se surpreenderam. O velho artista tinha se convertido a mais hedionda prática política e cultural: o fascismo.
Nas redes sociais passou a defender a violência, a censura, a homofobia e todas as coisas que caracterizam o fascismo nos dias atuais. Se tornou implacável. De artista popular virou um militante fascista, propagador de notícias falsas e seguidor de um líder enojado em todo o mundo.
Seus amigos e admiradores deixaram de ser seus amigos e admiradores. Aquele artista da paz, que lembrava o movimento libertário dos anos 60, agora era um adepto dos horrores do preconceito e da mentira.
Era o ocaso de um artista. Agora seu caminhar era titubeante e suas noites não tinham mais luar. O desbotado da sua roupa passou a significar o cinza da infelicidade e suas sandálias simples pisavam nas orquídeas terrestres.
Triste fim. O artista largou a arte para mergulhar na lama pútrida do fascismo.
*Lúcio Carril
Sociólogo
É isso que acontece. O fascismo acelera a degeneração humana.