14 Bis e a nossa linda juventude

Por Thomaz Antonio Barbosa

Saiba como ser livre todo momento da vida viva cada instante, dia após, após dia

Ano 1982, o despertar da primavera de um país que se redemocratizava, que perdia o medo, refazia os sonhos. Eu, um menino franzino, aprendendo os sons da vida; Manaus, uma cidade se enchendo de gente, de esperança, conduzindo o progresso da região e a meninada toda se urbanizando, ouvindo música, pegando sol, jogando bola.

De repente, do aparelho de som de minha casa, ouvi uma coisa mágica, nova, bela, livre no melhor sentido de liberdade. Eu imediatamente fui para a sala e embaixo do prato corria solto uma canção que iria ouvir durante toda minha vida, todos os dias, quem sabe mais de uma vez. Eu estava diante do 14 Bis, a maior experiência musical de minha vida. 

A capa do disco era vermelha, tão simples, tão enigmática, tão extraordinária e cheia de significados quanto à música que eu ouvia. Além Paraiso, guardava em suas ceras “Linda Juventude”, um meteoro que passou pela terra modificando a face rosa do planeta (sonho).

Tudo era exato, limpo, perfeito, enxuto, bem acima do que se pensara.  O baixo entra chamando o ovation, o órgão e a bateria para tocar.  As vozes se unem e a viagem começa.  Linda Juventude é aquela música em que você flutua, um momento raro do artista, se não estivéssemos falando do 14 Bis, uma banda dona de muitos momentos raros na música brasileira.

Durante toda a tarde eu fiquei ouvindo aquela canção, que não saiu mais de minha cabeça. Passados uns dias fui a um município vizinho a trabalho, atravessei o rio na velha balsa, entrei em um ônibus de madeira, parávamos a cada igarapé que aparecia na frente, e a música “passeio pelo interior” rolava em minha mente. 

Meus vínculos já estavam todos na cidade grande, mas o som do 14 Bis representava bem o que eu estava vivendo naquele caminho de chão, singrando a selva. Canções como “a qualquer tempo” ou “querer bem” marcavam bem a melancolia de estar longe de casa, enquanto “além paraíso” era a própria estrada, viva.

Nessas viagen em que você pensa que vai durar um dia e duram três, pinta sempre aquele fortuito “romance de amor”.  Longe de casa, na solidão do hotel ou da mata é que as “pequenas coisas” são importantes, então você curte placidamente “uma velha canção rock’n roll”, sentindo o cheiro da paisagem.

Chegar a casa, botar os pés na cidade, ouvindo “pele de verão”, uma música pra cima, com o mesmo sabor de juventude, é impagável. O som do 14 Bis estava em minhas veias, nobre e raro como o licor das folhas que caem sobre o tapete de raízes que umedece o trópico, e que transforma tudo em uma enorme estrela de luz, gás e calor.

Caçador de mim

Então, eu me interessei pela banda e percebi que o 14 Bis tem a trilha sonora que mereço, para as minhas horas, os meus dias, a pulsação que preciso, os acordes que me bastam, as frases que gostaria de ouvir sempre. O lugar onde me encontro comigo e a minha busca faz sentido, é o som que me acalma, me anima, inspira a viver. Não é à toa que sinto vontade de voar.

Quem é o 14 Bis?  Uma banda mineira que surge no final da década de 1970, em Belo Horizonte, sacralizada pelos sons do barroco, das montanhas, pela métrica e as vozes de Hely Rodrigues, Cláudio Venturini, Sérgio Magrão, Vermelho e Flávio Venturini, nomes tão originais quanto o som que fazem, simples, estranhos, sonoros, musicais.

A sensação de ouvir esses caras é uma história que não termina em uma página. Para quem já curtiu todos os seus discos, foi ao seu show e assistiu seus DVDs, diria que um livro só não basta. São 11 álbuns de estúdio, de 1979 a 2004; mais 05 ao vivo, o primeiro em 1988, o último em 2020; ao todo 06 coletâneas, de 1985 a 2010; por fim a banda gravou 03 DVDs, entre os anos de 2007 e 2010.

Em 1988 Flávio Venturini partiu para uma bem-sucedida carreira solo, com uma passagem de volta ao grupo no ano de 2012. Mas sempre esteve ali perto do ninho, na sonoridade, em parcerias, shows e outras afinidades. Tocar junto é bom para o pessoal das Gerais, do clube das esquinas do país inteiro.

Parece que foi ontem. A banda 14 Bis continua na estrada, em sua “nave de prata”, fazendo shows, tocando, cantando, harmonizando a vida da gente. Afinal de contas ainda temos muita juventude a queimar “nos bailes da vida”, com um chope na mão ou uma taça de veneno, perdidos de amor por uma “espanhola”, quem diria, “sonhando o futuro”!

…. Que venha mais uma estrada!

Imagens: Redes sociais da banda / Divulgação

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