Conversa com Thomaz

Elizete Mepaeruna, um símbolo de resistência e consciência nativa na selva da cidade.

(Imagem: Facebook pessoal / Divulgação)

Elizete Mepaeruna, 28 anos, 04 filhos, indígena do alto Solimões, artesã, musicista, grafista corporal, grafiteira e falante da língua materna do povo Tikuna, assim ela se define. Além da arte ela cultua a medicina tradicional. É uma das tantas moradoras ilustre do Parque das Tribos, uma ocupação em Manaus.

Porém, sua maior expressão surge no grafismo com um traço firme e bem significativo dos nativos do continente. Por esse forte significado e teor ancestral que agrega, Elizete Mepaeruna (EM) é a personalidade do CONVERSACOMTHOMAZ.COM (CCT) dessa semana, segue abaixo trechos da entrevista:

(Grafismo indígena, imagem: Acervo Pessoal / Facebook Divulgação)

CCT: Como você aprendeu grafismo?
EM: Aprendi com meus avós. Desde criança você usa para o ritual da moça-nova, pinta com tinta de jenipapo, e assim começa a respeitar e preservar tua cultura.
CCT: Você fala a língua ticuna de origem…
EM: Sim, aprendi na tribo.
CCT: Onde você nasceu exatamente?
EM: Na comunidade Porto Cordeirinho, Benjamim Constant, na realidade é uma tribo. O nome é porque quando os pastores chegaram lá, criaram em nós um bando de cordeiro, a história é longa, mas fomos tratados como animais deles. Eu sou da igreja de Santa Cruz, apostólica evangélica, eu ia todos os domingos, quarta-feira e sábado. Em Manaus eu ia para a Presbiteriana, depois aqui no Parque das Tribos frequentei outra, mas estou afastada, preciso sobreviver.

CCT: Como você se sente sendo indígena e cristã?
EM: Eu não vou deixar minha cultura porque ela vive sempre por trás de nós, não é uma religião que vai nos fazer deixar de realizar nossos rituais.
CCT: Claro, são seus valores…
EM: Eu faço remédios caseiros ai não tem com deixar minha cultura, né?! Por isso, estou aqui mantendo minha cultura viva.
CCT: Então você sobrevive da sua cultura?
EM: Sim, mas devido a pandemia ficou difícil de expor, eu vendo artesanato, também mando para o exterior… CCT: Você recebe algum incentivo de órgãos do governo?
EM: Não. O governo nunca dá apoio pra gente. Aqui no Parque das Tribos eu sobrevivo vendendo meu trabalho, mas pra mim mesma o governo nunca deu dinheiro.

CCT: Em relação às terras dos Ticunas no alto Solimões há algum tipo de conflito?
EM: Lá tá tudo calmo, não tem problema de terra.
CCT: Qual o maior problema que teu povo enfrenta no alto Solimões
Alcoolismo. Suicídio, por causa do alcoolismo as pessoas querem se matar. Meus parentes, meu primo que era meu bailarino, se matou por causa desse alcoolismo. E outras coisas que acontecem ao redor.

Nas palavras de Elizete é perceptível que quem faz o índio entrar no mundo do branco sem nenhum preparo é a igreja, então ele é forçado a sobreviver a uma engenharia perigosa que produz um ser dentro de outro.

Elizete é o símbolo dessa resistência, camuflando dor e sofrimento, misturando conhecimento ancestral com a cultura do invasor. Assim ela sobrevive às agruras de um processo civilizatório excruciante e conclama seu povo para não desistir.

*Todas as imagens são de arquivo pessoal do Facebook / Divulgação

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