Conversa com Thomaz

Crime e cumplicidade

Prof. Messias Ramos*

As queimadas na Amazônia se dão por motivação econômica que usa de meios ilegais para pressionar os pequenos agricultores a abandonar suas terras. O cerco do fogo às pequenas plantações da agricultura familiar, as queima e impede a reprodução da vida e a produção de alimentos por uma safra, pelo menos (entenda que safra é o período necessário para que a plantação possa ser colhida).

Sem plantação e criação, os pequenos agricultores entram na indecisão de permanecer na terra ou ir em busca de emprego (normalmente na fazenda de quem ateou fogo ao mato) para sustentar sua família, ocasionando o abandono da produção própria e inserindo-o na ciranda do salário mínimo sem reservas futuras. Tudo que se consegue é gasto na manutenção do mínimo necessário para sobreviver. Com isso, a terra desvaloriza e o interesse do criminoso é atendido após comprar ou grilar todos os lotes da região. Assim o arco do desmatamento adentra a amazônia em ritmo acelerado.

A terra queimada nunca mais produzirá frutas, verduras e animais de pequeno porte da agricultura familiar, mas será utilizada como pobre pastagem para o gado (não o gado bolsominion). Após cinco, seis anos, essa mesma terra será transformada em monocultura da soja. Assim tem acontecido desde que a ditadura, sob o slogan “integrar para não entregar”, cortou a mata com estradas e mandou colonos sudestinos e sulistas para “levar o progresso” para os índios e caboclos.

Destaca-se a origem dos colonos, não pelo preconceito xenofóbico, mas pela simples razão de que eles desconhecem a dinâmica do bioma Amazônia e suas interações naturais e humanas. Aqui, os povos originários desenvolveram técnicas e tecnologias, que foram aprendidas pelos ribeirinhos, de uso sustentável da floresta. Entre elas está a queimada da roça.

O processo de queimada ocorria sempre a partir do conhecimento sobre o ciclo de chuvas e ventos na região para que se aproveitasse ao máximo o tempo da seca, mas nenhum roçado recebia fogo sem a certeza de que em duas, três semanas, haveria uma chuva para molhar o solo. Enquanto se aguardava a chuva, as cinzas da queimada corrigiam a acidez e permitia melhorar a produção, essa era a ideia.

Antes de fazer a queimada, o caboclo e o indígena aceiravam o roçado para isolar do restante da mata que, neste tempo de verão amazônico está mais suscetível ao fogo. Por isso o aceiro. Aceirar era fazer um caminho (vereda) largo, com até um metro, no entorno do local, retirando folhas, galhos secos e raízes que por ventura pudessem propagar o fogo para dentro da mata.

O fogo era ateado sempre aos finais da tarde e contra o vento para que não ficasse alto e se perdesse o controle. Começava pelos limites do roçado para se extinguir ao chegar ao centro da derrubada. Todo esse processo era acompanhado por várias pessoas com baldes de cuia com água para apagar eventuais indícios de perda de controle ainda na margem da mata.

Com o advento da monocultura do agronegócio, após a monocultura do gado na região, todas essas técnicas foram criminosamente abandonadas para que o fogo pudesse adentrar o mais profundo possível na mata, abrindo a possibilidade de pasto e posteriormente a ocupação pelo latifúndio. A partir de então temos a conexão com grupos de interesses e com os políticos de carreira.

Para os políticos, o latifúndio monocultor “gera empregos no campo” e ajuda na economia do estado. Para o monocultor latifundiário e criminoso, financiar o político para que permaneça no poder é garantir que continue a cometer crimes sem o risco de pagar por eles. Cria-se assim a fusão do criminoso político com o criminoso ambiental-latifundiário-monocultor, que com muito dinheiro e recursos lutam para permanecer no poder ao longo de décadas.

Se toda a população, humana e animal, sofre com as queimadas na floresta Amazônica, por quais motivos os políticos não propõem mecanismos de combate ao crime ambiental contra o latifúndio-monocultor, por leniência ou cumplicidade?

*Prof. Messias Ramos é Mestre em Ambiente e Desenvolvimento

Imagem: Cristian Braga / Greenpace

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