

Por Arinos Marcião Esquerdo*
Muito me chamou a atenção, acredito também que da grande maioria dos brasileiros, o comportamento fora do normal de alguns adeptos da ultradireita radical, pedindo intervenção militar e propagandeando atos golpistas e anticonstitucionais , acentuadamente mobilizados logo após a vitória das forças progressistas no Brasil, nas eleições do dia trinta de outubro.
Todo esse cenário me levou a fazer uma reflexão muito interessante, por isso precisei retornar a um passado bem longínquo para observar com vocês a importância de se obedecer a determinados compromissos, marcas e sinais temporais que acabam se fixando como leis ou costumes, a serem seguidos por quase todas as sociedades e culturas. Falo especificamente das Setenta e Duas Horas ou o prazo de três dias. Esse tempo geralmente é estabelecido convencionalmente, tornando-se quase que impossível haver uma quebra, um retrocesso ou descumprimento de seu curso.
Vejamos por início, parte do conhecimento sobre os costumes, modos de sobrevivência do Homem da Caverna. Todos alinhados com a ordem do seu tempo. Possuíam a grandeza, a capacidade e a inteligência de caçar, por exemplo, em três dias ou Setenta e Duas Horas; de recorrer ao fogo e fazer durar a fogueira por esse ou mais período; ou até tomar um banho e limpeza corporal a cada etapa dessa, era o que bastava. Podiam também, nesse espaço de tempo, guardar e conservar os alimentos, desde que aquecidos ao calor do fogo. O certo é que dentro de três sóis, a caça estava, com certeza, garantida.
Não passava nada além desse período. Era só esperar que tudo acontecia, tudo se cumpria. E a lei da razão funcionava plenamente, como funciona com os que evoluem e propõem mudanças sociais. É a racionalidade que interfere positivamente para o sucesso e crescimento de uma comunidade. E assim caminha a humanidade. Vai sofrendo as transformações requeridas pelo cidadão e cidadã, até certo ponto harmônicas.
Avançando nessa trajetória histórica, encontramo-nos no século IV a.c. Agora pegando carona com o pensamento platônico do “Mito da Caverna”, escritos do filósofo grego Platão. Aqui é preciso um esforço de compreensão mais apurado para entender tudo o que está acontecendo atualmente.
Não cabe aqui explicar os detalhes desse grande ensinamento. Ele vai aparecendo e sendo esclarecido na diluição da leitura. A caverna de Platão está entre nós em pleno século XXI, não aquela primitiva e concreta, de relevo original, mencionada anteriormente, mas a atual, em forma de uma grande Bolha ideológica, alimentada por uma corrente bolsonarista whatsappiana, vindo a se materializar em forma de barracas espalhadas nos chamados acampamentos golpistas, construídos em frente aos quartéis de algumas cidades e capitais brasileiras.

O que sustentou a sobrevivência desses grupos por duas dezenas de Setenta e Duas Horas foram as chamadas sombras ou palavras de ordens (ecos imaginários), que na obra de Platão servia para enganar ou projetar visões distorcidas da realidade.
E os aprisionados e aprisionadas pela corrente imaginária diziam em pensamento individual: “dessa bolha não quero sair, é nessa bolha que quero ficar”. A cada insucesso (óbvio), e sem perceberem, colocavam mais lenha na fogueira para que o fogo não se apagasse.
Eram mais 72 horas vencidas, porque o único fogo real era o do Homem da Caverna. Como no ensinamento platônico, enquanto houvesse fogo, haveria sombras. Lembrem-se que as sombras ou berros são feitos irreais, mas para o mundo dos minions são as únicas verdades.
Falsas verdades que sustentavam os emparedados bolsomínions, aprisionados nos acampamentos da “resistência” da chuva, do sol e do vento. Fome não passavam. Financiadores haviam. Com força ficavam. Seus berros se tornaram mais eloquentes e odiosos, marcados por uma gigantesca raiva nas veias, cheios de perversidades nos olhos, com seus gestos e falas delirantes, a fim de conseguir seus intentos conspiratórios. Imaginem se aparecesse dentre eles um ser iluminado e resolvesse se soltar da corrente e fosse em busca da verdade.
Teria o mesmo destino de Sócrates, o mestre de Platão? Cremos que não. Não será preciso, porque no raiar do primeiro Sol, de um novo Dia, de um novo Ano, a sombra fantasiosa foi se enfraquecendo, fazendo com que os gritos e ruídos falsos fossem se arrefecendo, na mesma medida em que o Povo Brasileiro subia a rampa do Palácio do Planalto.
Passaram-se todas as Setenta e Duas Horas e nada aconteceu e nem acontecerá. Suas previsões eram mentirosas, todos sabíamos. Mas no fundo ainda fica uma preocupação: o perigoso nascimento de uma parcela desses humanos que já adquiriram os requisitos para difundir uma visão de mundo totalmente avessa aos problemas mais necessários da sociedade. Perderam sua própria identidade e história de vida. São os novos seres chegando para obedecer aos ruídos, sombras e sopros de algum ser cavernoso.
Restam-nos a sabedoria e a compreensão crítica para nos desvencilharmos de algumas “cavernas” que ainda restam. Até aqui mais de 72 horas se passaram, e todas evidentemente passarão, menos os fascistas.

*Arinos Marcião Esquerdo, é pensador e professor da rede pública de ensino
(Imagens: Redes Sociais)ĺ
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