

Por Lúcio Carril
Nunca tive heróis.
Só tive tempo de pensar na revolução. Quando era tempo de errar, resolvi sonhar; quando me cobraram trabalhar, militei; quando quiseram que eu parasse, já era tarde.
Não tive tempo de ter heróis, só utopias do possível fazer.
O tempo não me consumiu, pois não fiquei parado.
Lutei, tripudiei, ofendi com a ofensiva daquele que ainda não conheceu a vitória. Perdi, perdi, perdi muito, mas ninguém pode falar das minhas derrotas. Elas não foram minhas, de herói solitário, foram derrotas do mundo – esta metáfora que se perde entre substantivos e coletivos.
A militância começou cedo.
Com Gorki, conheci Mãe; com Zé Lins do Rego, fui capitão Vitorino; já com Prestes, conheci a vida; de Lamarca, o exemplo da resistência.
Sempre foram reais, mesmo que a ficção os quisesse heróis. Herói não carrega esperança.
“Minhas utopias ficaram marcadas pela resistência e renovadas pelas frustrações“
Lúcio Carril
Meus heróis nunca morreram de overdose, mas sei quem são os senhores do poder: não são meus amigos.
Os anos se passaram. Não tenho mais quatorze anos.
Minhas utopias ficaram marcadas pela resistência e renovadas pelas frustrações, pelo amanhã tardio, imprevisível, doloroso, apenas.
Com o tempo aprendemos a resistir de várias formas, com várias armas, mas a notícia que nos chega é que “a primavera é inexorável”.
Nossa luta tem o cheiro de jasmim e o gosto do Banquete de Platão, pois foi com o amor que aprendemos a sonhar.
É tempo de reconstruir. É tempo de construção. Nunca nos perderemos na desesperança. Assim é nossa resistência.
Lúcio Carril
Sociólogo
Imagem: Divulgação