Conversa com Thomaz

A nossa resistência

Por Lúcio Carril

Nunca tive heróis.

Só tive tempo de pensar na revolução. Quando era tempo de errar, resolvi sonhar; quando me cobraram trabalhar, militei; quando quiseram que eu parasse, já era tarde.

Não tive tempo de ter heróis, só utopias do possível fazer.

O tempo não me consumiu, pois não fiquei parado.

Lutei, tripudiei, ofendi com a ofensiva daquele que ainda não conheceu a vitória. Perdi, perdi, perdi muito, mas ninguém pode falar das minhas derrotas. Elas não foram minhas, de herói solitário, foram derrotas do mundo – esta metáfora que se perde entre substantivos e coletivos.

A militância começou cedo.

Com Gorki, conheci Mãe; com Zé Lins do Rego, fui capitão Vitorino; já com Prestes, conheci a vida; de Lamarca, o exemplo da resistência.

Sempre foram reais, mesmo que a ficção os quisesse heróis. Herói não carrega esperança.

Minhas utopias ficaram marcadas pela resistência e renovadas pelas frustrações

Lúcio Carril

Meus heróis nunca morreram de overdose, mas sei quem são os senhores do poder: não são meus amigos.

Os anos se passaram. Não tenho mais quatorze anos.

Minhas utopias ficaram marcadas pela resistência e renovadas pelas frustrações, pelo amanhã tardio, imprevisível, doloroso, apenas.

Com o tempo aprendemos a resistir de várias formas, com várias armas, mas a notícia que nos chega é que “a primavera é inexorável”.

Nossa luta tem o cheiro de jasmim e o gosto do Banquete de Platão, pois foi com o amor que aprendemos a sonhar.

É tempo de reconstruir. É tempo de construção. Nunca nos perderemos na desesperança. Assim é nossa resistência.

Lúcio Carril
Sociólogo

Imagem: Divulgação

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