

Por José Walmir*
No filme da saga O Senhor dos Anéis, o elfo Elrond, ao ser indagado pelo mago Gendalf sobre a possibilidade de construção de uma resistência contra o avanço criminoso do senhor supremo do mal, Sauron, responde-lhe que “a era dos homens estava acabando”, sugerindo que o melhor seria aceitar a derrota e fugir para longe da Terra Média.
Infelizmente, esse mesmo recado, que resume muito sobre muitos homens maus, está sendo dado todos os dias aos últimos heróis da resistência indígena amazônica: morte instantânea ou escravidão eterna e, infelizmente – outra vez – acompanhado pelo silêncio quase geral de uma sociedade que preferiu esconder suas mazelas e miserabilidade ao ter que enfrentá-las de forma ética e justa, ou ao menos, cristã.
Infelizmente, a nação indígena que um dia dominou e prosperou sobre esta terra está sendo brutalmente emparedada pela continuação do desejo espoliador do “branco civilizado”, e com ela, a Amazônia, o último santuário imaculado desses poucos sobreviventes que ainda resistem de forma autêntica à proposta brutal de ocidentalização incondicional de suas almas, e que por isso, também lutam contra uma cristianização violenta e “violentária”, e contra a pior forma de dominação cultuada pelo homo cachorrinho da modernidade: a servidão a símbolos, mitos e ideias perversas para dominação moral do outro.
“Infelizmente, a nação indígena que um dia dominou e prosperou sobre esta terra está sendo brutalmente emparedada pela continuação do desejo espoliador do “branco civilizado”,
José Walmir
Infelizmente, índios “aculturados”, revoltados, expolidos, escondidos, acanhados, organizados, quase queimados ou que preferem estar totalmente isolados dessa gente hipócrita, careta e covarde cujos fins – imorais – sempre justificarão os seus meios – ilegais – para prática de seus crimes, estão ficando sem terra, sem água, sem deus, sem fé, sem descendência e agora, também, sem muitos parceiros, posto que, aqueles que estão dispostos a lhes dar voz, calor e amor também estão sendo caçados, de Domingos a Domingos, pelos atuais Jorge Velho da modernidade…
Não se pode afirmar com certeza que o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram diretamente vitimados pelos mesmos criminosos que atualmente estão imbuídos em uma missão suprema de extrair até a última gota de vida da nossa Amazônia amazonense, mas certamente e muito provavelmente, aqueles criminosos estão profundamente envolvidos com as consequências a partir de então, tanto para a sobrevivência deles, quanto para eliminação dos seus rastros e história, para que se consagre a propagação do terror e se ecoe pela floresta sobre as consequências para aqueles que, por ventura, ousarem se aliar às únicas almas puras – humanas – que ainda habitam a Amazônia, porque na terra do Senhor do Mal, apenas o mal pode prosperar em paz…
Isso não deve nos calar, até porque, os registros históricos apontam que o Vale do Javari começou a ser “dominado” pelos portugueses a partir de 1766, com a construção de um forte em São Francisco Xavier de Tabatinga, cujo objetivo, segundo Arthur Reis, seria o de proteger a região dos bandidos e evitar o contrabando das riquezas amazônicas, além da evasão fiscal.
Passados quase 300 anos, não podemos desistir desse ideal.
*O autor é economista, tributarista e escritor.