Conversa com Thomaz

Ânimos exaltados na manifestação pró-praça Nestor Nascimento

Aconteceu na tarde dessa quarta-feira, 28, uma manifestação em defesa da permanência do nome da Praça Nestor Nascimento, localizada no bairro Praça 14 de Janeiro, Manaus.

O que motivou o ato público foi a mudança do nome do logradouro para Oscarino Peteleco, por meio da Lei nº 2.767/2021, proposta do vereador David Reis, sancionada pelo prefeito David Almeida, o que causou uma celeuma enorme em meio a comunidade negra e movimentos sociais de Manaus.

(Socorro Papoula, Ademir Ramos e manifestantes)

Os personagens

Oscarino Farias Varjão foi um ventríloquo muito popular em Manaus, acompanhado do seu boneco, o negrinho Peteleco. O artista viveu na Praça 14, faleceu em 2018. Porém já existe uma outra praça no bairro que homenageia ele e o personagem.

Nestor José Soeiro do Nascimento foi um advogado amazonense que dedicou sua vida a lutar em defesa da cultura dos povos afrodescendentes, indígenas, quilombolas, enfim, dos menos favorecidos. Fundador do Movimento Alma Negra – MOAN, ele também foi professor da rede pública de ensino.

Nestor articulou a comunidade negra do estado na luta pelos seus direitos sociais, também foi fundador do Instituto de Direitos Civis do Amazonas. Em razão de sua luta ele foi convidado pelo presidente Bill Clinton para conversar sobre direitos humanos, em 1997, em Washington.

A manifestação

A manifestação transcorria dentro da normalidade possível até o momento em que o Secretário Municipal de Limpeza Urbana, Sabá Reis, pediu o uso da palavra, furando a fila de inscritos. Nesse exato momento houve intervenção por parte dos manifestantes, os ânimos se exaltaram, o ex-deputado tentou prosseguir contra tudo e todos, o que não foi possível devido ao repúdio de Letícia Scantebelruy. Durante alguns minutos o ato público ficou impraticável, vindo a recomeçar depois de serenizar o ambiente.

(Os atvistas Letícia e Leonardo Scantbelruy)

A advogada Mary Andrade, representante do Movimento dos Advogados Trabalhistas Independentes (MATI), no uso da palavra, disse que havia se manifestado nas redes sociais do presidente da CMM, David Reis, e que o parlamentar lhe retornou em mensagem escrita, depois por ligação telefônica, para explicar que legalmente a praça não tinha o nome do líder negro, mas que poderia modificar a lei. Ela clássicou o gesto como:


Um desrespeito explicito aos negros, a comunidade da Praça 14 que não foi consultada, às minorias, aos advogados do Amazonas, às pessoas que se destacaram na luta pelos direitos humanos. Isso atende à política propagada pelo Sérgio Camargo, da Fundação Palmares, que usa a Instituição para destruir as conquistas do movimento negro, praticando um apagamento dos nomes importantes de negros que se destacaram no meio político, cultural e artístico do país”.   

Mary Andrade, representante do MATI-AM
(Mary Faraco de Andrade)

O vereador Rodrigo Guedes, que votou contra a propositura de David Reis, disse que considera desnecessária a mudança de nomes dos logradouros públicos, haja vista, a pauta de prioridades de problemas da cidade serem tantas. O parlamentar esteve presente durante todo o ato, juntamente com sua equipe, conversando com as pessoas, ouvindo a comunidade, porém não fez uso da palavra.

(Vereador Rodrigo Guedes / Divulgação)

A presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB-AM, a advogada Ana Amaral, concordou com a colega e acrescentou:

Não acredito que tenha sido um descuido ou ato de boa-fé, pois o poder público tem meios de verificar a nomenclatura de logradouros, bem como, tem     a obrigação de consultar a comunidade. Esse ato é uma clara manifestação de racismo institucional”.

Ana Amaral, presidente Comissão de Igualdade Racial, OAB-AM
(Mary Andrade e Ana Amaral)

O ato público encerrou ao entardecer. Estiveram presentes também personalidades da cultura, da política, dos movimentos sociais das diversas representatividades e fundamentações, artistas e intelectuais de todas áreas, como o sociólogo e professor da UFAM, Ademir Ramos, um menestrel do Amazonas; o líder sindical Herbert Amazonas; mestre Kaká Bonates; a atriz Rosa Malagueta; Cristiano da capoeira e o presidente do Instituto Nacional Afro Origem, Christian Rocha, entre outros.

Imagens: conversacomthomaz.com

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